sábado, 21 de abril de 2018

antropofagia


e se eu disser que comi a tua pele
soará talvez a metáfora qualquer
rima de insone
no fogo fátuo da madrugada
enquanto espantas o pó do corredor
curtindo embora os ombros lacerados
as cascas a gingar em plena metamorfose
e eu ainda afagando o estilete
alguém, quem
creditará a mim o ter-te devorado
sob o blecaute dos amores impossíveis
somente a cama ao meio dia em brasa
afiar no teu peito de pedra os confidentes
de diamantes que o atrito não consome
e descoser assim a tua carne
fibra por fibra


segunda-feira, 9 de abril de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

O tapete


Primeiro foi a infância, longa feito uma noite escura...

Quando foi despertada, na caixa de sapatos, ao som do próprio choro, dizem as péssimas línguas, tinha nos dentes os restos sugados da fralda que lhe deixaram como peça de herança. Retorcida sobre o tronco para sugá-la, era como se tivesse dado à luz a si mesma. Mãe não havia; pai seria o Tempo.

No rastro do primeiro engatinhar, um observador mais atento via o contorso de um bicho raro, promissor habitante dos ermos, desses que da escassez da água jamais se ressentem.

E a criatura trazia nas entranhas um pacote, o seu tempero era o paradoxal, tudo misteriosamente presente antes ou desde a pequena caixa fria, o anti-berço de ouro forjado (ironicamente?) no papel dourado projetado para os embrulhos caros dos melhores presentes daquele Natal. Dali também lhe viria a única outra herança da errança, o epíteto "Berço de ouro", que no entanto não lhe restaria na lápide, e que nem mesmo dará nome a esta narrativa.

Depois, cada requebro de fraqueza que lhe davam os joelhos, sutil, ela fazia reverberar pelas coxas acima, subir pelas ancas e ir descansar nos ombros, onde morria aos poucos, porém bem aproveitado, intuitivamente, como doce massagem e afago da solidão.

Assim também, graças a um jeito de corpo, processava, diariamente, o alimento que lhe caía nas mãos, e que era, invariavelmente, em quantidade muito maior ou muito menor que aquela que de fato necessitava.

No primeiro caso, armazenava; no segundo, ruminava até a chegada da próxima remessa.

Ora eram os modos de uma cobra exausta, que relaxa enfim de sua lenta luta e chocalho, a cada vez que o ventre se acha saciado; ora era um boi fatigado, que longas horas sem fim passa a retemperar o quimo do pregresso na sua íntima caldeira de ácido.

Em breve os dedos do povoado se esticariam na sua direção, se por nada mais, porque ela andava, e sorria e comia e rastejava como quem vai ao fim do mundo, onde ele é feito de massas e carnes e doces em barras que farturam pelo caminho, entupindo as frestas, apertando a glote dos comentes e, mais ainda, a dos que não comem...

Um dia porém – davam-se férias nesta parte do globo – acordou cedo e com enorme sede de entornos. Em parte, era como se seguisse dormindo e sonhando com amplas fraldas desfraldadas. O pé roliço foi saindo de sob o edredom, a perna se dobrou lenta, pesada, redondamente. Ela torceu o corpo sobre si mesma e, com uma mão firmemente assentada sobre o colchão e a outra se erguendo no ar feito um branco morcego obeso, deu um pequeno impulso e sentou-se ao pé da cama, suando como a mucama do Sísifo.

Erguer-se, agora, era um segundo projeto.

Quando alcançou enfim a tomada, já o receio de ver-se à luz da lâmpada amarela se ampliara... O que ela, num repente, desejava, com uma força nunca antes pressentida, era sugar para dentro de si a tomada, o fio, a lâmpada - e a luz. Findo o processo, caiu de quatro sobre o grosso tapete de pelos duros que cobria parte do assoalho, sendo como que arrastada pelo desejo incontrolável de engoli-lo também.

Achegou a cabeça mais perto da borda e, erguendo-a na densa poeira que pairava na altura do rodapé, abocanhou de vez a ponta, que súbito desceu quadrada, e somente depois, com o aumento da deleitosa voluptuosidade, foi entrando goela abaixo facilitadissimamente.

Como serpe que devora uma presa maior que o seu próprio corpo, foi pondo o tapete para dentro aos solavancos involuntários da glote, até que naquele cânion desapareceu a última franja peluda.

Descansou uns longos minutos em torno da nova, vitoriosa cratera, que semelhava um corte quente, feito a frio na frouxa carne assolada da criatura. Gotículas de magma saltavam incontroláveis.

Aquele, um dia, foi um belo tapete.



sábado, 24 de fevereiro de 2018

ponto de fuga para N



Conversion. Egon Schiele.

no epílogo da tarde
eu busco ainda
as paisagens sem barreiras


o fundo
múltiplo
dos espelhos


o gozo rasgo


eu gosto de homens sem medo
de camisas sem botões
e de nacos de palavrões


a mãe no pai
o u
um eito de carnes rijas


e o calor da palavra
macerada
entre dentes quentes


o simples somente sexo


amplexo







domingo, 28 de janeiro de 2018

linguagem



do pomo que a tarde madura
em torno do seu corpo e meu
exala inteira a dialética do amor




no mais ínfimo hiato entre línguas
cada pergunta absurda se oferece
a todas as respostas indecentes


obscenas senhas sutis
sussurros infinitos dos mirantes
queixos que afundam em carnes
perfumadas de outras carnes perfumadas


troncos colidem
na correnteza de corpos espasmos
fecundando a nascente de um novo rio


sons de sapos em lagos


mel das abelhas líquidos fluentes
quebrar de cascas muito finas
estertor de animais paridos


estoura a bolha do silêncio