sexta-feira, 22 de maio de 2020

Testando

- Mãe, o que é um verbo de ligação?
- É um verbo que liga o sujeito da frase a uma característica dele.
- Por que você não diz "a uma qualidade", como no livro?
- Porque a palavra qualidade, como a gente a usa hoje em dia, parece indicar só características positivas. Eu não quis confundir você.
- Ah tá, entendi.
- E o sujeito é o quê, mesmo? É aquele que age, na frase?
- Não, nem sempre. O sujeito é aquele ser ao qual o verbo se refere primordialmente, na frase, mas não significa que ele aja, sempre.
- Por exemplo...
- A mãe foi testada pela menina. O sujeito é a mãe. Não é um ser agindo, concorda?
- Sim, ela só reage.
-  Rs, e quem é que está agindo?
- A menina, testando a mãe!
- Mas o verbo concorda com quem?
- Com a mãe.
- Isso! Se o sujeito fosse o pai...
- O verbo teria que  ir para o masculino. É a desinência...
- Número-pessoal.
- Isso mesmo! Nossa, mãe! Até que, pra um adulto, você é bem inteligente, hem!

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Profissão

- Mãe, eu já descobri que profissão eu quero ter.
- Qual?
- Eu quero fazer Letras. Vou ser professora de Português e escritora.
- Jura? Que orgulho, minha filha! Você quer fazer o mesmo que eu!?
- Eu quero, mãe. Mas, olha... Não fica chateada, não, mas... Não tem nada a ver com você.
- !?









domingo, 17 de maio de 2020

sexta-feira, 15 de maio de 2020

haikai chinês para paulo sodré








lockdown na cidade
na praça só um bonsai
pobres dos amantes













quarta-feira, 29 de abril de 2020

Depressão em dois tempos

Flora me chama para assistir com ela a um clipe em preto e branco de uma jovem cantora irlandesa. A música é depressiva, na letra e no tom, as notas todas decaem no fim das frases musicais.

Sobre um fundo que é apenas um campo nevado, a moça macérrima, de cabelos desalinhados, veste uma camisa enorme que roubou do padrasto e traz uma corda amarrada no pescoço. Olhos cravados no nada, ela mal sustenta sua coreografia monótona, balançando os braços finos de um lado para o outro. Semelha uma boneca de lata que apanhou de marreta e teve as pernas fincadas na neve.

Flora me traduz as gírias da letra, analisa o look da cantora e ri do modo como me impressiona a corda amarrada no pescoço.

Depois discorda de mim, afirmando que a música não é nem um pouco depressiva.

Insisto que nunca ouvi nada mais depressivo em toda a minha vida.

- E ela tem uma corda amarrada no pescoço!

Expandindo um pouco mais as vias abertas para o diálogo, puxo pela memória do que fui, do que ouvi e vivi quando tinha a sua idade. Exploro o arquivo dos mais depressivos que conheço, depressão que, assim como ela, assisti e apreciei apenas como a uma peça de teatro surreal.

Apresento-lhe então o Morrissey do tempo do The Smiths e uma coisa ou outra do Radiohead. Ela assiste a tudo muito atenta, e no final dá o seu veredito:

- Nossa, mãe! Você acha isso aí depressivo, mesmo? Para mim isso aí é praticamente motivacional!