segunda-feira, 14 de maio de 2018


a go ta que fal
ta go ta que fal ta
go ta que fal ta

                        v

                        a



                       

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Redução

Estendido o tapete, Ele a empurra, de joelhos, para a ponta mais macia, que semelha o lombo de uma almofada.
O gesto hoje teve algo de simuladamente macho e brutal, ela observa, mas sabe de antemão que esta será mais uma tarde sem surpresas, entre tantas tardes de joelhos na ponta do tapete.
Ele ainda lhe lança aos pés uma outra almofada, e esta é um objeto de verdade, no entanto parece cair infinitamente.
Ele leva a mão esquerda ao cabelo dela, retirando-o do rosto, enquanto a direita acaricia o seu próprio quadril, liberando assim a visão do ato para uma câmera invisível que no entanto, ambos o sabem, os vigiará até o fim.
Ela se aproxima, já um tanto duvidosa sobre a veracidade do seu desejo voraz.
Percebe-se a mulher no foco da câmera, mas não parece tirar disso qualquer satisfação. De repente se nota que tudo mudou nas dimensões.
Câmeras, câmaras... Dimensões de mansões.
Diz algumas palavras encorajantes (aquelas mesmas que precisava ouvir). E mete a boca.
Mete a boca, era o que Ele pensava já em falar para o Mário, quando o encontrasse.
Por uns segundos ali Ele pensa no Mário. Os pensamentos desviantes que poderiam até auxiliá-lo, estranhamente não o auxiliam nessa hora.
A mulher tem os ombros caídos. Infinitamente.
Não é difícil a Ele contudo manter firme a coluna diante do trabalho empenhado de alguém que o libera do seu próprio esforço. Ainda que, no final, nem sempre se colham frutos.
Ele, por vezes; ela, jamais.
O fantasma do Mário se afasta um pouco, mas outras sombras o substituem de imediato.
A mulher tem os ombros caídos, era só o que notava agora, com insistência. Como alguém pode trazer os braços tão pendurados a ponto de parecer mesmo que não tem ombros? Seria um novo fantasma? Um problema congênito? Má formação? Ou seria o vício dos que limpam o chão para que outros passem? Que peso fora posto naquelas costas? Quem o teria colocado ali? Seria a deselegância o estigma dos que são postos, diuturnamente, de joelhos?
Sacudiu a cabeça para espantar pensamentos insetos. Voltou a pensar no Mário. Aquele fantasma era um recalcitrante.
Súbito sentiu como se o diâmetro entre os seus dedos não fosse mais suficiente para recolher o tufo crespo dos cabelos da mulher.
Ela seguia empenhada, mas alguma mudança já se notava no pedestal em que Ele se habitava.
A coluna agora começava a dar sinais de fraqueza. No fundo, ela esperava o golpe de misericórdia, viesse de onde e como viesse. Mais uns segundos e não poderia manter o corpo ereto.
Ele tinha encolhido alguns centímetros e a sua boca deslizava para áreas em que apenas produziria cócegas.
De todo, não reclamaria... Aquela tarde tinha sido diferentemente estragada. Ele ria sarcástico, a culpa era dela. As mãos dEle, em geral muito pouco hábeis, tentaram qualquer gesto de ordem prática, mas os dedos agora não lhes pareciam, nem a Ele, nem a ela, suficientes, e ela olhava impressionada para o homem que encolhia à sua frente, a olho nu.
As dimensões todas do corpo tinham diminuído em muitos centímetros. Apenas a cabeça permanecia quase do tamanho natural, o que, antes que sorte ou mérito, semelhava mais um castigo: ter de assistir, consciente, à sua própria redução.
Recostou-se na cama. A mulher se ergueu e ajudou, apanhando-o no colo.
Por alguns minutos ficaram inertes ali, num canto, a olharem ambos para aquele corpo já ínfimo, e que encolhia. A essa altura tinham quase desaparecido seus dedos inúteis, o pênis já nem mais existia.
Ela chorava, entre chocada e liberta.
A câmera há tempos fora esquecida.







sábado, 21 de abril de 2018

antropofagia


e se eu disser que comi a tua pele
soará talvez a metáfora qualquer
rima de insone
no fogo fátuo da madrugada
enquanto espantas o pó do corredor
curtindo embora os ombros lacerados
as cascas a gingar em plena metamorfose
e eu ainda afagando o estilete
alguém, quem
creditará a mim o ter-te devorado
sob o blecaute dos amores impossíveis
somente a cama ao meio dia em brasa
afiar no teu peito de pedra os confidentes
de diamantes que o atrito não consome
e descoser assim a tua carne
fibra por fibra


segunda-feira, 9 de abril de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

O tapete


Primeiro foi a infância, longa feito uma noite escura...

Quando foi despertada, na caixa de sapatos, ao som do próprio choro, dizem as péssimas línguas, tinha nos dentes os restos sugados da fralda que lhe deixaram como peça de herança. Retorcida sobre o tronco para sugá-la, era como se tivesse dado à luz a si mesma. Mãe não havia; pai seria o Tempo.

No rastro do primeiro engatinhar, um observador mais atento via o contorso de um bicho raro, promissor habitante dos ermos, desses que da escassez da água jamais se ressentem.

E a criatura trazia nas entranhas um pacote, o seu tempero era o paradoxal, tudo misteriosamente presente antes ou desde a pequena caixa fria, o anti-berço de ouro forjado (ironicamente?) no papel dourado projetado para os embrulhos caros dos melhores presentes daquele Natal. Dali também lhe viria a única outra herança da errança, o epíteto "Berço de ouro", que no entanto não lhe restaria na lápide, e que nem mesmo dará nome a esta narrativa.

Depois, cada requebro de fraqueza que lhe davam os joelhos, sutil, ela fazia reverberar pelas coxas acima, subir pelas ancas e ir descansar nos ombros, onde morria aos poucos, porém bem aproveitado, intuitivamente, como doce massagem e afago da solidão.

Assim também, graças a um jeito de corpo, processava, diariamente, o alimento que lhe caía nas mãos, e que era, invariavelmente, em quantidade muito maior ou muito menor que aquela que de fato necessitava.

No primeiro caso, armazenava; no segundo, ruminava até a chegada da próxima remessa.

Ora eram os modos de uma cobra exausta, que relaxa enfim de sua lenta luta e chocalho, a cada vez que o ventre se acha saciado; ora era um boi fatigado, que longas horas sem fim passa a retemperar o quimo do pregresso na sua íntima caldeira de ácido.

Em breve os dedos do povoado se esticariam na sua direção, se por nada mais, porque ela andava, e sorria e comia e rastejava como quem vai ao fim do mundo, onde ele é feito de massas e carnes e doces em barras que farturam pelo caminho, entupindo as frestas, apertando a glote dos comentes e, mais ainda, a dos que não comem...

Um dia porém – davam-se férias nesta parte do globo – acordou cedo e com enorme sede de entornos. Em parte, era como se seguisse dormindo e sonhando com amplas fraldas desfraldadas. O pé roliço foi saindo de sob o edredom, a perna se dobrou lenta, pesada, redondamente. Ela torceu o corpo sobre si mesma e, com uma mão firmemente assentada sobre o colchão e a outra se erguendo no ar feito um branco morcego obeso, deu um pequeno impulso e sentou-se ao pé da cama, suando como a mucama do Sísifo.

Erguer-se, agora, era um segundo projeto.

Quando alcançou enfim a tomada, já o receio de ver-se à luz da lâmpada amarela se ampliara... O que ela, num repente, desejava, com uma força nunca antes pressentida, era sugar para dentro de si a tomada, o fio, a lâmpada - e a luz. Findo o processo, caiu de quatro sobre o grosso tapete de pelos duros que cobria parte do assoalho, sendo como que arrastada pelo desejo incontrolável de engoli-lo também.

Achegou a cabeça mais perto da borda e, erguendo-a na densa poeira que pairava na altura do rodapé, abocanhou de vez a ponta, que súbito desceu quadrada, e somente depois, com o aumento da deleitosa voluptuosidade, foi entrando goela abaixo facilitadissimamente.

Como serpe que devora uma presa maior que o seu próprio corpo, foi pondo o tapete para dentro aos solavancos involuntários da glote, até que naquele cânion desapareceu a última franja peluda.

Descansou uns longos minutos em torno da nova, vitoriosa cratera, que semelhava um corte quente, feito a frio na frouxa carne assolada da criatura. Gotículas de magma saltavam incontroláveis.

Aquele, um dia, foi um belo tapete.