sábado, 4 de maio de 2013

Uma nova mulher

Cícero Dias.

O estranho é o seu próprio problema. (Zygmunt Bauman)


Boa tarde, minhas queridas. Estranharam a nova decoração do palco? Éééééé... hoje é um dia muito especial, porque nós vamos iniciar o nosso programa falando de uma novidade no mercado: Esta cadeira, na qual eu estou sentada, não é uma cadeira qualquer! Vejam bem: a cadeira Maxi-flex é a única totalmente reclinável, e assume quatro diferentes posições.
 
A primeira, que eu estou utilizando agora, deixa suas costas eretas e permite que você faça todo tipo de trabalho manual sem se cansar, porque possui os exclusivos braços Ultra-flex, que acompanham os movimentos dos pulsos (movimenta circularmente o microfone).

A segunda é esta, uma posição de meia reclinagem. (aperta um botão sob o assento e reclina a cadeira): ideal para assistir a TV.

A terceira posição deixa você ainda mais relaxada, e é excelente para aquelas que não dispensam uma boa leitura (reclina a cadeira um pouco mais). Tudo isso com apenas um toque, sem qualquer esforço.

A quarta posição da nova cadeira Maxi-flex, e nossa grande novidade, é esta, totalmente deitada. Pode reclinar sem medo de cair (reclina e segue falando deitada, alongando um pouco as vogais, os olhos semicerrados, como se tivesse sono, a câmera focando-a do alto). Aqui você vai ter um sono tranquiiilo, relaxaaado, com conforto e segurança.

Agora ela já se ergue bocejando e alongando o tronco, como se tivesse acabado de acordar: Não tem como não ser feliz numa cadeira Maxi-flex! E você pode adquirir a sua agora mesmo. Sabe por quanto? Não, é demais, você não vai acreditar. Por apenas 1,99 por dia. Éééééé, é isso mesmo: 1,99 por dia. O que é que você faz com 1,99, minha amiga? Ligue agora: Zero operadora onze três um quatro dois treze vinte e sete. Você está esperando o quê? As cem primeiras pessoas que ligarem vão receber inteiramente grátis o Manual de Instruções e um protetor plástico especial, para garantir vida longa à sua cadeira. Repetindo: Zero operadora onze três um quatro dois treze vinte e sete.

Aplausos.

Minhas amigas, agora nós vamos acompanhar o caso de Janiscleide, que teve a carta selecionada pela direção do programa. Vocês estão lembradas da Janiscleide? Ela esteve aqui na semana retrasada e contou a nós a sua história. Vamos ver as imagens...
 
No telão é exibido um resumo do resumo da vida de Janiscleide, levado ao ar quinze dias antes. A mulher é filmada de biquíni, em diferentes ângulos. Depois aparece um close de seu rosto, com olheiras, e um sorriso triste, com poucos dentes. No rodapé da tela, lê-se: Janiscleide é empregada doméstica e mãe de duas meninas. O telão mostra ainda a casa e as filhas de Janiscleide.

Agora vamos ver o que diz o especialista que nós contratamos para analisar esse caso. Aparece no telão o especialista, de branco, caneta na mão, por detrás de uma mesa sobre a qual estão espalhados, perto de uma revista Capas, alguns livros cujas lombadas é impossível ler:
 
Bom, nós estivemos estudando cuidadosamente o caso da senhora Janiscleide (a mulher está sentada diante dele, vestida com um blusão largo, de material sintético) e estivemos constatando que ela precisa de intervenções de vários tipos. Nós, da Clínica Beauty Business, vamos estar propondo para ela uma lipoaspiração abdominal (entra o áudio da platéia, com os aplausos), aplicação de silicone nos seios, bronzeamento artificial, um peeling esmeralda, corrente russa, drenagem linfática, plástica facial completa - pálpebras, nariz, boca, queixo e papada (aplausos efusivos) -, botox, implante de dentes, cabeleireiro, manicure, pedicure, fio de ouro e terapia de correção postural (ovação da platéia).
 
Retorno ao auditório. Algumas pessoas ficam de pé para aplaudir. No rodapé da tela aparece a inscrição: Janiscleide é rejeitada pelo marido porque é feia.

Vamos acompanhar o passo a passo de Janiscleide, diz a apresentadora. Ela fez todo o tratamento em duas semanas.

Surgem cenas de centro cirúrgico: primeiro o abdômen é subdividido pela marca da caneta, depois uma agulha muito longa e aparentemente flexível é fincada energicamente em diversos pontos do músculo lombar, para sucção da gordura. A seguir aparece um antes e depois dos seios de Janiscleide, imagem que arranca gritos de surpresa da platéia.

A animadora acrescenta: Durante quinze dias ela ficou entregue às melhores clínicas, salões e spas do Rio de Janeiro, sempre com uma máscara cobrindo o seu rosto, porque a transformação uma surpresa, antes de tudo, para ela própria.

Aparece a imagem da mulher no salão, com a máscara, tendo ao mesmo tempo o cabelo cortado e as unhas pintadas e, em seguida, deitada de biquíni num tubo para bronzeamento artificial.

Somente depois de completo todo o tratamento ela poderá se olhar no espelho, o que fará hoje, aqui, diante de vocês. Tragam o espelho, por favor! É trazido para a frente do palco um espelho oval, de aproximadamente um metro e meio, sobre rodas. Na borda, rosáceas azuis e douradas mal acabadas. Noutra cena aparece apenas a mão de Janiscleide, escolhendo entre alguns vestidos longos, dispostos em araras.

Gente! Minhas queridas! Daqui a pouco nós vamos receber no nosso palco uma nova Janiscleide. Simulando não resistir à curiosidade, a apresentadoraai do palco e entra no camarim, ao encontro de Janiscleide. Demora-se alguns minutos, enquanto solta de lá, ao microfone, gritinhos e interjeições de espanto. Retorna ao palco sorridente. Põe a mão sobre a boca, em sinal de admiração, e diz, alongando as pausas entre as palavras: Vocês não vão acreditar no que vai acontecer aqui! É simplesmente in-crí-vel! No rodapé da tela, a nova inscrição: O corpo e o rosto de Janiscleide foram completamente transformados.

Atenção, atenção! Acaba de nascer uma nova mulher! Meu Deus! Ela está ir-re-co-nhe-cí-vel! Pode entrar, Janiscleide. Entre, por favor. (No telão ao fundo aparece Janiscleide, se aproximando pelo corredor que conduz ao palco). A apresentadora prepara o público: Gente! Mas é esse mulherão todo!? Entre, Janiscleide! Pode entrar!

A mulher entra com a máscara e bastante atrapalhada com as pontas do vestido. É esta mesmo a sua mãe, Jennifer, pergunta a apresentadora olhando na direção de uma das meninas, sentada na primeira fila. A adolescente parece confusa. Não sabe ao certo se deve responder que sim ou que não. A animadora anima: Tinha uma barriga muito grande a sua mãe, hem!? E mantém, coquete, um arzinho sério, enquanto a platéia solta o riso.

O vestido negro ajuda a realçar o novo corpo de Janiscleide, que caminha com dificuldade sobre os saltos. A apresentadora lhe entrega um microfone. Eu posso agradecer, pergunta Janiscleide, se aproximando para abraçar a apresentadora. Esta a afasta com o braço que segura o microfone, esticando o cotovelo e situando-a no melhor ponto para o close: Agradece, pode, mas antes olha pra lá. Pera lá, não chora não, não chora ainda não, pra não estragar a maquiagem. Olha praquela câmera ali e fala pro seu marido, que está assistindo, fala, fala, fala tudo que você tem vontade!

Janiscleide tem sotaque paraibano. Tomada de forte emoção e insegura sobre a sua nova imagem, que ainda não contemplou, ela mutila as palavras e vê-se que preferia nada dizer, mas aos poucos, entre soluços e lágrimas, cede aos apelos da apresentadora: Júnior, você dizia que eu não era mulher pra você. E agora, Júnior? Você dizia que ia pro boteco encher a cara porque tinha desgosto de ter uma mulher tão feia. Você dizia que tinha vergonha dos seus amigos, que qualquer baranga na rua tinha o corpo mais bonito que o meu e que o meu lugar era na beira do tanque com a barriga molhada, lavando as suas cuecas. O quê que você acha agora, Júnior?

Dá uma rodadinha, Janiscleide, mostra pra ele a nova mulher em que você se transformou, a animadora instiga. É i-na-cre-di-tá-vel! Não é, minhas amigas? O público repete: Éééééé!

Janiscleide roda desajeitada, a cabeça sempre baixa.

Agora! Chegou a hora! Preparem-se para o que vocês vão ver! Nós temos aqui uma nova mulher! Olhando para esta câmera, Janiscleide, tire a máscara. E depois caminhe em direção ao espelho. Pode tirar a máscara!

Janiscleide retira a máscara, mal encara a câmera e segue para o espelho, no qual parece realmente não se reconhecer. O público solta um óóó. A princípio ela estaca séria, com o mesmo olhar triste que já se via em sua primeira imagem e, desviando-se furtivamente de seu reflexo, começa a chorar inibida, a mão cobrindo a boca convulsa, como quem se envergonha de chorar diante de um estranho. Até mesmo seu choro traz o acento paraibano, e as maçãs do rosto, muito saltadas, não puderam ser de todo disfarçadas pela maquiagem. Contudo as rugas de expressão que havia em torno da boca e que agora comporiam a máscara do choro sumiram completamente com a aplicação de botox. O cabelo foi tingido e os cachos crespos se renderam à escova progressiva, mas a doméstica paraibana que o marido rejeita continua presente ali, sob a derme, os cabelos e as roupas de uma atriz global.

A câmera alterna agora entre o novo rosto da mulher e as suas filhas, sentadas ao lado de uma amiga, obesa, de Janiscleide. O que você acha, pergunta a animadora à amiga obesa, que chora: Ela merece, porque ela tem muita fé. Ela rezava todas as noites para vir ao seu programa. Ela escreveu mais de duzentas cartas. Ela sempre soube que um dia ia conseguir. Era o sonho da vida dela.

A animadora encerra o programa, dizendo: Às vezes, algumas pessoas me param na rua pra perguntar se tudo isso aqui é armação. Eu respondo: Como, armação? O nosso programa é de u-ti-li-da-de  pú-bli-ca.
 
Aplausos.
 
Na tela, seu rosto enérgico se aproxima. Nós temos muito respeito pelos participantes e pelo público. E num tom um pouco mais duro, balançando a cabeça e lançando para a câmera um olhar ensaiado de pantera: A gente aqui não está tratando só da aparência, a gente está cuidando também de almas!

Aplausos.

No rodapé da tela se lê: Janiscleide é uma nova mulher.

6 comentários:

  1. Uma crítica mordaz da nossa televisão, da nossa imbecilidade, da "medicina" estética em seus flertes com o mercado. Melhor dizendo, seu casamento com o Capitalismo. Andreia, apesar de vivermos tempos terriveis, felicito-me em ser sua contemporanea e anseio por conhecê-la pessoalmente. Parabéns pela sua produção, pelo estilo, sensibilidade aguda e constância nas postagens. Aprecio seu blog como a poucos. Um abraço. A.T.

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  2. Puxa, Andréia! Que texto bem escrito! Já vou levar pra sala pros meus alunos.

    V.
    Saudades de ti.

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  3. eu vim aqui sem querer buscando limpesa de pele no google e levei uma poretada lendo a istoria da janiscleide, não vou nem procurar mais nada acho que aprendi pelo menos que eu priciso e gostar mais de mim mesma, isquece a limpesa de pele.

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