quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Se e quando

Rodrigo Braga.
 
- Mãe, se você morrer, eu vou me matar.
- Não, meu filho! Não! Não pode ser assim, não!
- Mas como eu vou viver sem você? Eu não quero viver sem mãe.
- Ninguém quer, meu filho, mas, quando isso acontecer, é preciso que a vida continue. Existem muitas outras alegrias, você vai ver.
- Mas eu vou ficar triste.
- É normal ficar triste, mas não se deve desanimar. A vida é desse jeito: acontecem coisas que a gente não quer. Você fica triste e, depois de um tempo, fica alegre de novo. Combinado?
- Não, eu não vou combinar nada disso com você.

10 comentários:

  1. Que lindo (e sobretudo honesto) esse diálogo! Sem subestimar a inteligência das crianças!!!!

    V.

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  2. Andréia, seu filho te falou mesmo essas coisas?

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  3. Sim, esse texto aí reproduz parte de um diálogo que tivemos, mas eu omiti a descrição que ele faz de uma cena dramática, porque na escrita soaria apelativo.

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  4. Muito muito muito bom!

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  5. Sem querer ofender!
    Deve-se pensar ,já, em um acompanhamento psicológico.

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    1. Sem dúvida: crianças normais não têm pensamentos sobre a morte, nem imaginam que os pais podem morrer e também não são capazes de imaginar a dor que isso causaria a elas, não é? Menos ainda crianças imaginam os desdobramentos que o sentimento de perda poderia trazer, algo parecido com o desejo de não mais querer existir. Pois eu garanto a você que esses sentimentos habitam a todos, e que sofrem mais aquelas que não têm como, as que não podem ou são podadas quando sequer pretendem falar sobre esses assuntos, aqueles que ouvem logo um "Para de falar bobagem, menino!" ou então um "A mamãe não morre, vira estrelinha! Se você vivesse antes de 1808, recomendaria o mesmo nos posts que falam sobre sexualidade - entende? Mas se vivesse aí, também, não teria como recomendar a psicologia – ironia do destino: a medicina cria as doenças – por que será? Haverá algum tramita ainda oculto sobre a cópula entre essas ciências e o capitalismo? Mas fique tranquilo que não me ofendo, não. Pelo contrário. Quando posto diálogos assim, sejam eles inventados ou não, sei bem o tipo de coisa que posso ler: o mesmo que ouço em todos os outros lugares. Mas, se você conhecer um psicólogo bem caro, com um consultório bem chique e um discurso bem enquadrante, politicamente correto, recomendo que leve o seu filho para essa máquina de fazer linguiça, para ele sair igualzinho a todos os outros e nunca te importunar com perguntas absurdas e comentários dramáticos sobre esses tabus inabordáveis. Um abraço sem ofensa.

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    2. Ooo Lord! Nem de graça quero um psicólogo!!!!! Aqui é um dos raros lugares em que posso ler (e às vezes discutir) coisas interessantes, úteis. Eu diria, inclusive, pouco amarradas moralmente (considerando o fato de não ser possível nos desvencilharmos de todas as amarras uma vez que, em maior ou menor grau, somos, também, fruto delas). Eu diria o mesmo para meus filhos (se os tivesse) e não os trataria jamais como idiotas! Acho fantástica a lógica das crianças em encarar o mundo quando ainda não estão muito enquadradas pela cultura! Morte, angústia, solidão, medo, sexualidade, incesto, etc. não deveriam ser tabus inabordáveis quanto o são! São todos sentimentos da ordem do dia, próprios de todo humano e a ficção (na verdade, para mim, tudo não passa de ficção) nos ajuda, inclusive, a lidar com esses sentimentos/tabus não tentando colori-los de rosa... Enfim, Andréia, nada de psicólogos!!! Prefira as máquinas de fazer linguiça!!! Aliás, uma vez comi uma na chapa com queijo e jiló maravilhosa......
      Não existe "terapia" para nós - "humanos, demasiadamente humanos"!!

      Um abraço, querida!!

      V.

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