segunda-feira, 26 de julho de 2010

Nos nós (parte 2)

Foram as últimas anotações que madruguei. Depois, mais longe do silêncio duramente urdido, enfiei a cabeça pela janela, para fora do quarto obscuro, repleto dos periódicos que durante tanto tempo dividiram comigo o ar rarefeito daquela água-furtada, e vislumbrei ao longe, num ror de gente, uma cara esquisita, um tanto familiar. Tendo esgarçado em segundos sessenta peles do meu corpo auto-regenerante, saí para a rua de camisa branca, abrindo a multidão a cotovelos, flashes do passado anunciando as cenas seguintes. O coração no bolso, junto a caneta e canivete. Na outra calçada acheguei-me ao velho reconhecido, e ele vinha trazendo as muletas de muito ter agradado com a conhecida pureza clara – transparente – das suas palavras. Não era alguém com quem na tosca língua dos reclusos pudesse falar, não me ouviria. Aproximei-me e olhei-o, agora sem espanto. Era o mesmo mutante de outrora, a calva ampliando a fronte em todos os sentidos. Minha face refeita no entanto o apavorava. Abriu a boca, bom dia, buscava um tom autoconfiante, como vai, gaguejava, há quanto tempo. A cobra da doxa pulou certeira no meu pescoço, espremendo as purezas que eu tentava respirar naquela manhã. Fechei os olhos nauseado e suas palavras flutuavam como bolhas de sabão cingidas de repente num terço volátil pela liquidez da ladainha há muito conhecida e repetida, brotando-lhe da boca em programados borbotões. Vinha não se sabe de onde e ao encerrar a primeira fala já havia pressionado, automático, o sinal do semáforo, enquanto eu, no precipício enfim, pressentindo o bote da despedida que me sufocaria, colei a boca na sua, evitando que iniciasse a segunda parte da velha litania. Era assim conseguir de volta um pouco do ar sugado dos meus pulmões exauridos pelo tempo de convívio, no quarto, com a palavra escrita nos jornais.


Enquanto lépido sentia na minha o lábio seco da sua carne, pôs-me a mão sobre o peito, paf, e empurrou-me com força do meio-fio em direção à rua, como se me defendesse de catástrofe premente, asfaltando-me, pof, pof. Perante a queda brusca e a multidão que seguia retilínea, os ônibus, perplexos, se amontoavam uns sobre os outros, biii, na presença súbita daquele novo corpo estranho, o meu corpo. Os sons condensados das buzinas pressionavam meus ouvidos como socos. Passantes sufocaram um riso nervoso. Um rapaz saído de uma barraca amarela tocou meu tênis com a ponta do pé. Todos aguardavam um assentimento para agir, mas ninguém dizia que direção o coletivo tomaria. Foi o que vi, ouvi estatelado no chão de março, enquanto puxava minha perna de sob as rodas do automóvel pequeno cujo passeio findara ali. Por alguns instantes, resquícios de filmes americanos bruxulearam à minha frente. A posição em que me encontrava era muito trágica, do meu ponto-de-vista, e o velho desconhecido se sumiu na multidão, com as sobras do meu hálito emborcadas no seu.

Sobrou-me tempo para despensar que houvesse asco naquele seu gesto desesperado; quem sabe nem fossem muletas aquelas pernas duras, empanadas num tecido liso que não amarrotava, e a mão que empurrou o meu peito fosse antes o tentáculo de um arrebatamento que o impelia contra mim e a meu favor, antes que o ouroboros que nos elidia os pomos-de-adão saísse a se arrastar pela cidade, traçando um risco tortuoso frente à multidão muda.

Era possível que estivesse vindo ele também de incinerar os seus recortes de periódicos, e tivesse confundido, à primeira vista, as minhas calças com muletas e, quando fechei os olhos, achou talvez que eu estivesse escondendo as bolhas engroladas que me habitavam a garganta, e a serpente que nos enredava já enroscava a cabeça e a cauda no meu e no seu colos. Quiçá o ar que quis sugar dos seus pulmões fosse também a sua única reserva, e a mão que de assalto me afastava era a que defendia sua vida, e a boca que me renegara ainda mais me recebera, antes, depois, lá longe. Poeirava no céu a sombra do contato a um tempo tardio e prematuro, a marca engrossada daquela transfusão fluindo ali, em meio ao tráfego subitamente interrompido.

Enquanto retiravam minha camisa de sob o veículo, e antes de a dor se acomodar, quis saber o que rondava minha mente, mas não fui além de compreender que seria aquela a sexagésima primeira veste e a minha pele inconsútil se rebelara nos membros, expondo o que de sangue e nervos havia lá dentro. Os restos de mim no asfalto eram quase uma terceira pessoa. Um cão aproximou-se farejando, mas os pedestres, parados em torno da minha primeira e definitiva body art, enxotaram-no com ganidos incrivelmente humanos. O sangue latejava-me nos ouvidos, aguçando-os. O tráfego seguia e finalmente a matilha faminta espantava os curiosos que vinham me lamber o sangue e a ferida e a ambulância logo, logo, se alguém de seu celular,

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