terça-feira, 16 de outubro de 2012

Chamado Machado

O poeta Waldo Motta. Foto de Fábio Luiz Monteiro Freire (capa do livro Transpaixão). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Waldo_Motta 

Imagine que você pudesse voltar no tempo uns 140 anos...

Você mora no Rio, mais precisamente no Catete, e aquele moço seu vizinho, o tal Joaquim, cuja irmã gêmea morreu ainda criança, no morro do Livramento, passa por você todos os dias, calado, na dele... Parece mesmo doente - dizem que é epilético. Mas, para além de todos os amigos dele, aqueles que apreciam e pressentem já o seu talento, só mesmo você, chegado do futuro, sabe ao certo quem ele é; ou melhor: quem ele será: você está diante de ninguém menos que Machado de Assis.

O que faria você em tais circunstâncias? Continuaria passando por ele também em silêncio? Imagine, aquele homenzinho feio, nascido tão pobre, dali a algum tempo vai escrever o Dom Casmurro! Passaria você a cumprimentá-lo, sabendo que ele é quem é? Aliás, sabendo que ele será quem será?

Quem sabe você não ofereceria ajuda, quando ele viesse subindo a rua com grandes embrulhos! Talvez fizesse mesmo amizade com Machado de Assis. Já pensou? Mas ele parece tão fechado...

E houve aquela vez em que você o encontrou na praça. Naquele dia o seu Joaquim nem parecia tão alheio às coisas. Não. Até olhou você com simpatia. Você, porém, não estava mesmo num bom dia, não é?

Pois então... E se você soubesse que é vizinho, hoje, do futuro Machado de Assis? Bom, façamos as devidas correções. Claro, você pode alegar que não é mais um tempo em que se produzam Machados... Ou que a literatura não será, daqui a cem anos, o que é, para nós, hoje...

Digamos pois que você vive na mesma cidade que um futuro Machado de Assis. Ah, o futuro... Essa bolinha de papel que o Acaso diz jogar com o Destino...

Pois eu, do meu lado, insistirei em que é - e será.

É que, quanto ao futuro, o meu palpite vale tanto quanto o seu. E eu o darei a você, inteiramente gratuito - a minha parte nesta história é fazê-lo...

Se você mora em Vitória do Espírito Santo, é muito provável que cruze diariamente com um futuro Machado de Assis (todas as distinções e resguardos de proporção: de extensão, de gênero, de dicção, biográfica, faça-as você mesmo).

Contudo, se você for à Vila Rubim, procure por ali uma casinha muito pobre, habitada pelo poeta Waldo Motta. Leve presentes para ele, entabule uma conversa, divida com ele uma pizza. É ele o futuro. Um futuro Machado de Assis.

Tire fotos ao lado de Waldo, peça para ler os seus originais, traduza-os para o mandarim, compre seus livros, aceite que ele faça o seu numeróscopo, dê a ele um computador novo, faça parte da sua fortuna crítica, realize sobre a vida do poeta um documentário.

E boa leitura!

10 comentários:

  1. Como é bom colher uma opinião honesta, sem máscaras. Obrigada, Anônimo!

    ResponderExcluir
  2. Talvez depois de um passeio na máquina do tempo chegaria até Machado e sofreria um certo incômodo, medo de q algo da verdade manchasse o q vivo dessa figura hoje. Já sem esse deslocamento admirárel, por aqui fincada, mas não menos viajante, leio e admiro muito os textos Waldo Motta, e apesar da proximidade de tempo e espaço, sinto um embaraço semelhante ao pensar na possibilidade de trocar ideias, me aproximar de alguma forma, pois é possível q a persona delineada em minhas considerações por meio de seus poemas tenha se afirmado nas acomodações q leitura fornece.

    Boa chamada!

    beijo

    ResponderExcluir
  3. Ei, Jô. Entendo a questão da "mancha" e me identifico com as sensações que você descreve - com relação aos dois, aliás. Por isso permaneço na "chamada". Meu abraço.

    ResponderExcluir
  4. Cada um tem o Waldo Motta que merece! É claro que há nítidas semelhanças no Machado do Waldo: a infância pobre, a negritude, a (aparente) fragilidade física... na verdade os arquétipos se repetem e nisso há uma semelhança com muitos outros poetas de vários tempos em todos os mundos. Já dizia o Borges que todos os poetas são um só poeta, e que no final das contas só um homem nasceu e morreu nesta Terra. E todos os poemas são sempre a tentativa de escrever o tal poema definitivo. Waldo Motta é uma esfinge... decifra-o em ti e seja deliciosamente devorado!

    ResponderExcluir
  5. Belíssimo comentário! Aprovo muito a sua lógica, de Waldo Motta e seus precursores: o Waldo no Machado. Obrigada por ter vindo. Volte sempre. Um abraço com carinho.

    ResponderExcluir
  6. Excelente escritor. Porém, sua poesia erótico-mística ainda é um tabu em nossa sociedade. Em 2005 eu o encontrei para uma entrevista informal. Passamos cerca de uma hora bastante agradável na rua 7 (Centro de Vitória).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bacana, Antônio!
      Um abraço e grata pela visita.

      Excluir